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A estética entrou na era do quase imperceptível

Vânia de Paula | Foto: Divulgação

Depois dos excessos, cresce a busca por procedimentos que preservam a identidade e fazem da naturalidade o novo sinal de sofisticação

Durante anos, fazer um procedimento estético e deixar isso evidente não parecia necessariamente um problema. Lábios volumosos, contornos marcados e mudanças perceptíveis ajudaram a construir uma estética amplificada pelas redes sociais e pelo universo das celebridades.

Agora, o movimento parece seguir na direção contrária. Em vez de perguntar o que alguém fez no rosto, o melhor resultado talvez seja justamente aquele que não oferece uma resposta óbvia.

É uma espécie de luxo silencioso que saiu da moda e chegou aos consultórios.

Para a biomédica especialista em estética Vânia de Paula, proprietária da VP Saúde Estética, em Goiânia, há uma relação entre os dois movimentos. Assim como grandes marcas passaram a reduzir a exposição ostensiva de logos e monogramas, parte dos pacientes também começou a procurar resultados menos evidentes.

“Existe uma tendência mundial de diminuir essas marcas. Até as marcas de luxo reduziram suas logos. Na estética, acredito que aconteceu algo parecido. Durante um período, as pessoas se mostravam demais”, afirma.

O medo de ficar com “cara de procedimento”

A popularização da harmonização facial também produziu um efeito colateral: o receio do excesso.

Vânia conta que recebe pacientes que chegam ao consultório estabelecendo uma condição antes mesmo de discutir qualquer intervenção: querem melhorar a aparência, mas não querem que o procedimento seja percebido.

Na avaliação da especialista, resultados muito evidentes associados a celebridades e amplificados pelas redes sociais também contribuíram para criar, em parte do público, o receio de perder características individuais.

“Hoje o paciente chega dizendo: ‘eu quero melhorar, quero envelhecer de uma forma mais agradável aos olhos, porém sem grandes transformações’.”

A mudança ajuda a explicar uma nova fase da estética: menos transformação e mais preservação.

Para Vânia, a própria evolução das técnicas contribuiu para isso. Produtos, pontos de aplicação, profundidade e planejamento passaram a ser considerados dentro de uma estratégia mais ampla, que não se resume a adicionar volume ao rosto.

Vânia de Paula | Foto: Divulgação

Quando o profissional também precisa dizer não

Se naturalidade virou objetivo, limite passou a fazer parte do tratamento.

E Vânia admite que essa vigilância não vale apenas para os pacientes. Quem trabalha diariamente observando rostos também pode começar a enxergar pequenas alterações o tempo inteiro.

“Até nós, profissionais que trabalhamos com harmonização, precisamos nos policiar. A gente acha defeito no nosso rosto todos os dias. Olha e encontra uma sobrancelha diferente, uma linha aparecendo. Então é preciso estabelecer um planejamento.”

É justamente nesse ponto que o “não” também entra no consultório.

Segundo a biomédica, há situações em que continuar preenchendo pode produzir o efeito contrário ao desejado. Ela relata receber pacientes com excesso de produto e aparência facial inflada, casos nos quais a prioridade pode passar a ser corrigir intervenções anteriores antes de pensar em qualquer novo procedimento.

“Tem acontecido de receber pacientes com excesso de produto, com o rosto extremamente inflado. Primeiro precisamos tratar isso, melhorar a qualidade e a estrutura da pele e, depois, pensar em embelezamento e refinamento.”

Não é apenas colocar ácido hialurônico

A discussão também ajuda a desmontar a ideia de que todo preenchimento é igual.

Segundo Vânia, resultado e segurança dependem de uma combinação que envolve avaliação individual, produto adequado, quantidade, região, profundidade e técnica de aplicação.

A literatura científica descreve eventos adversos relacionados aos preenchimentos com ácido hialurônico, especialmente em regiões delicadas como a área abaixo dos olhos, incluindo edema e irregularidades de contorno. Por isso, indicação, conhecimento anatômico e técnica adequada são fundamentais.

“O ácido precisa ser colocado na camada certa, na quantidade correta, na profundidade correta e é preciso escolher o produto adequado. Quando isso não acontece, o resultado pode ficar estranho.”

Nos lábios, ela também relata receber pacientes interessados em corrigir volumes que ultrapassaram o desenho natural da boca.

É uma mudança significativa para um mercado que, durante determinado período, esteve muito associado à ideia de acrescentar. Agora, parte dele também trabalha para retirar, corrigir e recuperar proporções.

A câmera também mudou nossa relação com o rosto

Existe ainda outro elemento nessa transformação: nunca nos vimos tanto.

Lives, reuniões virtuais, vídeos e redes sociais colocaram o próprio rosto permanentemente diante de uma câmera. Para Vânia, esse comportamento ganhou força depois da pandemia e alterou a maneira como muitas pessoas passaram a observar a própria aparência.

“Na videoconferência, a gente fica olhando para o nosso rosto o tempo todo. Nesse momento começa a perceber algumas coisas que gostaria de melhorar.”

A exposição digital também ampliou, segundo a experiência da profissional, a presença masculina nos consultórios. Homens cuja atividade envolve palestras, vídeos, reuniões e exposição constante diante das câmeras estão entre os públicos que ela percebe mais atentos à aparência.

Mas essa convivência permanente com a própria imagem traz uma contradição: a mesma câmera que estimula o autocuidado pode ampliar a atenção sobre detalhes que antes passariam despercebidos.

Talvez por isso a discussão sobre limite tenha se tornado tão importante quanto a discussão sobre possibilidades.

Vânia de Paula | |Foto: Divulgação

Algumas linhas também contam uma história

Naturalidade não significa necessariamente ausência de procedimentos.

Para Vânia, significa entender que envelhecer não precisa ser tratado como algo que deva ser completamente apagado.

“Algumas marcas, algumas linhas vão permanecer. Fazem parte da história.”

A frase resume uma mudança interessante na conversa sobre envelhecimento. Em vez da promessa de congelar o tempo, entra em cena a ideia de acompanhar suas mudanças e intervir de maneira gradual.

Tecnologias, lasers, tratamentos voltados à qualidade da pele, bioestimuladores e procedimentos injetáveis fazem parte desse universo, sempre dependendo de avaliação e indicação individual.

O futuro pode estar menos no volume

Vânia acredita que uma das próximas fronteiras da estética estará no desenvolvimento de tratamentos voltados à qualidade da pele e aos processos biológicos envolvidos no envelhecimento.

Entre as áreas que acompanha com interesse estão os peptídeos, moléculas que participam de diferentes mecanismos de sinalização celular e vêm sendo estudadas em aplicações dermatológicas e cosméticas.

Pesquisas têm investigado o potencial de determinados peptídeos em parâmetros relacionados ao envelhecimento da pele, embora resultados e nível de evidência variem conforme a molécula, a formulação e a forma de utilização.

Para Vânia, essa mudança de direção é significativa.

Se uma etapa da estética foi marcada pelo preenchimento e pelo volume, a próxima pode ser definida cada vez mais pela busca por qualidade de pele, estímulo biológico e intervenções progressivas.

No fundo, a mudança talvez seja ainda mais simples.

Vânia de Paula | Foto: Divulgação

O desejo de parecer outra pessoa começa a dar lugar ao desejo de continuar parecendo consigo mesma.

E, nessa nova lógica, luxo não é fazer mais. É fazer o suficiente para que ninguém saiba exatamente o que foi feito.

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