Da transformação de Pirenópolis à gastronomia contemporânea de Goiânia, natureza, hospitalidade e sabores revelam um novo olhar sobre o bioma e mostram como Goiás encontra nas próprias raízes uma forma contemporânea de sofisticação. Foto: Villa do Comendador
Durante muito tempo, falar em Cerrado era falar de uma paisagem familiar para quem vive no Centro-Oeste. Vegetação singular, cachoeiras entre serras, frutos de sabores intensos, receitas de família e cidades onde tradição e cotidiano pareciam caminhar no mesmo ritmo.
Esse olhar está mudando.
O Cerrado continua sendo tudo isso, mas passou também a despertar o interesse de um público que procura justamente aquilo que não pode ser reproduzido em qualquer lugar: natureza, história, gastronomia, pertencimento e uma relação mais genuína com o destino.
Em Goiás, esse movimento pode ser percebido em diferentes direções. Pirenópolis consolida uma vocação turística cada vez mais ligada à natureza, à hospitalidade e à diversidade cultural. Ingredientes regionais deixam o universo exclusivamente doméstico para ocupar novas criações gastronômicas. E Goiânia amadurece como mercado para propostas contemporâneas que encontram nas referências locais, e não na reprodução de outros centros, um caminho para se afirmar.
Um destino que aprendeu a ser vivido
À frente da Villa do Comendador, em Pirenópolis, estão os empresários Geovani Ribeiro e Maristela Ribeiro, responsáveis pela trajetória do empreendimento ao longo dos últimos 15 anos. Foi Geovani quem conversou com a Fluxo e relembrou as mudanças que acompanhou não apenas dentro da Villa, mas no próprio turismo da cidade.

Quando o empreendimento surgiu, Pirenópolis vivia uma dinâmica diferente. Segundo ele, o movimento turístico estava muito mais concentrado entre quinta-feira e domingo, e a Villa nasceu com uma proposta de hospedagem rústica, diferenciada pela qualidade, pelo paisagismo e pela criação de diferentes ambientes de convivência.
“A Villa agregou um valor, construiu um destino, que antes funcionava só de quinta a domingo”, relembra Geovani.
Ao longo dos anos, spa, pizzaria, restaurante, academia e espaços para convivência e celebrações foram integrados à proposta. Neste ano, uma área destinada às atividades infantis, com mais de 500 metros quadrados, também passou a fazer parte da estrutura.
Mas Geovani enxerga esse movimento para além dos limites da própria Villa. Na avaliação do empresário, o surgimento de novos empreendimentos ajudou a construir uma nova hotelaria em Pirenópolis e contribuiu para ampliar a projeção da cidade.
O destino, por sua vez, também mudou.
Pirenópolis além do fim de semana
Cachoeiras e patrimônio histórico continuam sendo elementos fundamentais de Pirenópolis, mas a cidade passou a reunir novas possibilidades que ampliaram sua presença no mapa turístico.
Geovani cita festivais de jazz, cinema, vinícolas, cervejarias artesanais e uma gastronomia cada vez mais diversa, reunindo desde referências goianas e mineiras até cozinhas de diferentes regiões do Brasil e de outros países.
Para ele, essa multiplicidade não substitui o que é próprio da cidade. Ao contrário, soma novas possibilidades a um lugar cuja natureza e história continuam sendo seus principais elementos de diferenciação.
“Nós estamos ali num espaço que é um presente de Deus. São mais de 100 cachoeiras dentro de uma área lindíssima, muito preservada, com uma cidade histórica completando, ano que vem, 300 anos”, afirma.
A referência é a 2027, quando Pirenópolis completa três séculos desde sua fundação, em 7 de outubro de 1727.
Geovani também associa esse momento à valorização crescente do próprio bioma.
“O Cerrado vive um momento único a nível mundial com essa discussão toda do bioma e de todas as características únicas que o Cerrado tem, que são extremamente relevantes.”
Na Villa do Comendador, essa relação com a paisagem aparece também no projeto paisagístico. Segundo o empresário, espécies características do Cerrado foram preservadas e passaram a conviver com outras plantas incorporadas ao espaço. A localização entre montanhas, a vegetação e a presença de elementos ligados à água ajudam, na visão dele, a criar a atmosfera de aconchego que caracteriza o empreendimento.

É uma percepção que acompanha uma mudança maior no turismo: aquilo que pertence a um lugar específico ganha valor justamente porque não pode ser reproduzido da mesma maneira em outro destino.
Um reconhecimento que projeta Goiás
Esse novo momento ganhou um símbolo importante em 2026.
A Villa do Comendador foi eleita uma das 10 melhores hospedagens do Brasil no Travellers’ Choice, Os Melhores dos Melhores 2026, do Tripadvisor. O empreendimento conquistou a 10ª colocação no ranking nacional e foi o único representante de Goiás entre os vencedores.

O reconhecimento reforça uma percepção defendida por Geovani: a de que o Centro-Oeste começa a conquistar maior espaço em um mapa turístico brasileiro historicamente marcado pela projeção de destinos de outras regiões.
“Antes, discutíamos muito Sul, Sudeste e Nordeste. Agora, o Centro-Oeste cada vez mais passa a existir.”
Para quem acompanhou as mudanças de Pirenópolis ao longo dos últimos 15 anos, o momento atual representa mais do que a consolidação de um empreendimento. Revela uma cidade que ampliou sua oferta sem abandonar aquilo que a tornou singular.
E parte dessa singularidade também pode ser descoberta à mesa.
Quando o Cerrado chega à mesa
Pequi, baru, guariroba, cachaça de alambique e tantos outros sabores associados durante gerações às cozinhas familiares hoje aparecem também em restaurantes, festivais, harmonizações e criações contemporâneas.

Para a chef Juliana Barroso, essa mudança não apaga a memória. Ao contrário, amplia o valor de uma cultura alimentar que durante muito tempo esteve presente dentro de casa antes de conquistar outros espaços.
“Os pratos tradicionais do Cerrado deixaram de ser apenas comida de vó, mãe ou tia, passaram a ocupar um papel estratégico na construção da identidade regional, no fortalecimento da economia e na valorização do nosso território.”
Esse novo olhar passa também pela compreensão de que um ingrediente não termina no sabor.
“Cada ingrediente do Cerrado carrega muito mais do que sabor. Ele traz consigo uma história, uma cultura, um modo de fazer e uma cadeia produtiva que merece reconhecimento e valorização”, afirma Juliana.
A aproximação entre produtores, chefs, instituições e consumidores ajudou a construir essa percepção. O público também mudou. A origem do alimento, quem o produz e a história existente antes de ele chegar ao prato passaram a fazer parte da relação com a gastronomia.
Inovar sem apagar a memória
Transformar tradição em cozinha contemporânea exige cuidado.
Para Juliana, novas técnicas e linguagens podem ampliar as possibilidades dos ingredientes, mas não devem apagar aquilo que lhes deu origem.
“O segredo está no respeito à origem. A inovação não significa substituir a tradição, mas criar novas formas de apresentá-la.”
Essa ideia aparece, por exemplo, na barriga de porco com crumble de cachaça e torresmo, criação que leva um produto profundamente ligado à cultura brasileira para uma leitura contemporânea.

O mesmo princípio acompanha ingredientes como pequi, baru e guariroba. Eles podem assumir novas apresentações e combinações sem perder as histórias, os produtores e os modos de fazer aos quais estão ligados.
“A gastronomia contemporânea tem a responsabilidade de contar histórias por meio dos pratos”, diz a chef.
Para Juliana, essa valorização ultrapassa a cozinha. Quando um produto regional ganha espaço, cresce também a possibilidade de dar visibilidade aos pequenos produtores, fortalecer a agricultura familiar, movimentar o turismo e preservar a cultura alimentar.
E ela não acredita que esse movimento seja passageiro.
“As tendências passam; a identidade permanece.”
Da tradição à Goiânia contemporânea
Essa mudança também pode ser percebida no comportamento de quem consome experiências em Goiânia.

Para o empresário José Henrique Queiroz, sócio do chef Fabiano Vaz no Alma Boutique Bar, o público da capital amadureceu junto com a própria cidade.
“Eu diria que o público de Goiânia amadureceu junto com a cidade. Durante muito tempo a gente foi vista como uma praça que replicava tendências de fora, o que dava certo em São Paulo chegava aqui depois. Isso mudou.”
Segundo José Henrique, o goianiense viaja mais, consome mais conteúdo, compara referências e passou a esperar dos espaços da própria cidade uma proposta mais completa.
“Não é só sobre comer bem, é sobre arquitetura, sobre atendimento, sobre a experiência ter um propósito do início ao fim. O cliente quer entender a história por trás do lugar, não só consumir o prato ou o drink.”

Foi diante desse consumidor que nasceu o Alma Boutique Bar.
“Criar o Alma foi um exercício de coragem, na verdade. A gente estava propondo uma linguagem de alto padrão numa cidade que, para muita gente de fora, ainda era vista como conservadora nesse tipo de consumo. Mas apostamos que Goiânia estava pronta, e a resposta do público confirmou isso rapidamente.”
Para o empresário, mais revelador do que despertar curiosidade foi perceber que o público voltou, incorporou o espaço à rotina e passou a apresentá-lo também a visitantes de outras cidades.
“O que mais me marca é ver que as pessoas não foram ao Alma só por curiosidade; elas voltaram, incorporaram o lugar na rotina delas, trouxeram visitantes de fora pra mostrar.”
Para José Henrique, essa resposta revelou um desejo que já existia na cidade.
“O Alma não criou esse desejo, ele deu forma a um desejo que já existia.”
Sofisticação com sotaque próprio
O amadurecimento desse público não significa que Goiânia precise reproduzir modelos de São Paulo, Rio de Janeiro ou de qualquer outro grande centro.
Para José Henrique, é justamente o contrário.
“Não se trata de copiar São Paulo ou o Rio, se tratasse, a gente perderia justamente o que torna Goiânia única.”
É nesse ponto que o Cerrado reaparece como elemento central.
“A personalidade da cidade está no Cerrado, está na nossa relação com o ingrediente, com a hospitalidade mais próxima, menos performática.”
Segundo José Henrique, o que acontece hoje é uma tradução. Técnica, estética e referências contemporâneas podem dialogar com aquilo que Goiás já possui.
“O que vejo acontecendo é uma tradução: pegamos a sofisticação, o rigor técnico, a estética que se vê nas grandes capitais, e passamos isso pelo filtro do que somos, pelo nosso jeito de receber, pelos nossos produtos, pela nossa identidade regional.”
O resultado, para ele, é uma cidade que começa a assumir sua própria linguagem.
“O resultado não é uma cópia de nada. É Goiânia falando a própria língua, só que agora com mais confiança pra ocupar um lugar de destaque no mapa gastronômico do país.”
O Cerrado como protagonista
Pirenópolis, a cozinha regional e o amadurecimento do público de Goiânia contam partes diferentes de uma mesma história.
O Cerrado começa a ser desejado não porque tentou se parecer com outros territórios, mas justamente porque aquilo que lhe é próprio passou a ser percebido como valor.
Pode estar em uma cachoeira entre montanhas, na vegetação preservada, no patrimônio de uma cidade que caminha para três séculos de história, no sabor de um fruto, em uma cachaça, em uma receita reinterpretada ou no jeito de receber.
A paisagem, os sabores, os produtores, a arquitetura, as histórias e os modos de viver deixam de funcionar apenas como pano de fundo.
Passam a definir a experiência.
Juliana resume essa mudança:
“O Cerrado deixou de ser apenas cenário. Hoje, ele é protagonista, inspira inovação e desperta desejo justamente porque oferece aquilo que o mundo mais procura: autenticidade, identidade e pertencimento.”
Em um tempo em que destinos, restaurantes e experiências podem parecer cada vez mais semelhantes, Goiás começa a perceber que não precisa buscar longe aquilo que pode torná-lo desejado.
O Cerrado encontra força justamente naquilo que não pode ser copiado.







